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05/09/11

Linha de Água

Não lhe apetece pensar, nem explicar ou argumentar. Não lhe apetece desistir.
Quer experimentar a «metafísica que existe em não pensar em nada». Sentir o insosso do mundo, o peso leve do corpo, banhar-se no não. Fazer de costas o papel, deixar de navegar num pano fundo de cetim azul. Cair por terra como quem regressa aos espasmos do ventre.
Por vezes fica tão cansada de caminhar de queixo erguido, que inverte a imagem, rodando-a da parede para o chão.
O cenário é o mesmo o que muda é o reflexo da sombra. Andar na linha-de-água com os olhos secos dela.
Por vezes sente saudade daquele ardor que nos olhos antecipa o sal...

31/08/11

Verso

A mulher azul não consegue separar as palavras do corpo.
Usa-se vestida de azul para esconder a pele opaca do silêncio que desafia. Compõe atalhos ao seu reverso com fios de cabelo dourado e neles enreda emoções que finge não sentir.
A mulher azul não sabe escrever poesia. Por isso vira-se para o verso como se a verdade fosse a parede tosca que lhe lê os olhos. Na impossibilidade está a sua realidade. Vê-se de olhos presos numa infinitude tangível e teima escrever versos que contrariem a narrativa que a conhece. Todas as noites deita-se no reverso da prosa e reza ao Deus que vê na parede do quarto. Aprende a rezar as cores que o dia lhe ensina. Hoje choveu, aliás chove e a mulher sente que o seu corpo derrete sem nunca ter mergulhado no oceano da simetria. Não precisa de um amante, nem de um espelho. Procura apenas acariciar no peito, o coração que de costas não sente.

30/08/11

A literatura do espaço

Um disco com histórias dentro.
Ensemble, Exceprts, Fat Cat Records

A literatura do corpo

Hoje voltei aos livros de Lispector não por receio de regressar à praia da Sra Woolf, mas porque às vezes, apetece-me mudar as coisas do sítio.
Outro motivo: venho da leitura de Gonçalo.M.Tavares e isso faz apetecer ler mulheres como Milya.
De qualquer forma, penso que o corpo da literatura é, cada vez mais, um corpo feminino.
Isto não é «feminismo» é apenas uma forma de respirar debaixo de água.
Faço parte do grupo que não se senta nos transportes públicos porque prefere ler um livro de pé. Com a devida vénia ao livro, recuso sentar-me.
Aí declino todo o cavalheirismo.
Quando salto para o mar também recuso fazê-lo sentada, sustenho a respiração e só depois consigo abrir os olhos. Assim é quando o meu corpo sai de um livro. Demoro tempo a sentir as gotas da chuva.
E assim depois de algumas páginas da «paixão segundo lispector», respirei, suspirei e por fim adormeci, deixando de ter corpo.
Nestas alturas posso dar-me ao luxo de cantar à chuva e derreter.

13/04/11

O lamento dos Livros

Lisboa é uma cidade de cantos, recantos e desencantos. Um dos meus encantos na cidade é a Livraria Trama. Às horas de almoço, na descida do jardim dos plátanos, gostava de passar por lá, nem que fosse apenas para espreitar livros, como quem visita um museu de obras maiores. Quando visitava a Trama saía de lá com a sensação de que tinha visitado dos melhores museus do mundo, podia não ter comprado aquele quadro do Goya ou aquele livro do Walt Whitman, mas vi-os! Melhor, sabia-os lá! E aguardava voltar em dias melhores, com a carteira mais gorda, pronta a levá-los para casa.

Quando era criança ofereceram-me um livro sobre um cão. E ofereceram-me um cão. O livro vinha embrulhado em papel, decorado de laço. O cão vinha solto, sem trela...

Depois compraram-lhe a trela azul, daquelas que esticam até ao fundo do jardim. Não queria vê-lo partir. Até hoje guardo a trela do amigo de quatro patas e olhos redondos. Nunca quis que ele me fugisse. Como se um fio o prendesse a mim, para sempre...Cães e livros goraram a minha tentativa de os guardar. Como se uma corda, uma trela, um fio, um novelo os ligassem para sempre à nossas próprias pontas soltas! Tamanha ilusão! Hoje sinto todas as pontas desapegadas e talvez também eu tenha de soltar amarras. O que levo comigo? O livro de infância? Não, esse foi-me furtado pelo fio do esquecimento... O Cão? Não. Foi-me levado... partiu para terras de Timbucktu. Há um novelo que nos dá no coração quando nos afastamos dos amigos de infância. Em adultos o mesmo novelo surge quando nos afastamos de outros adultos ( mesmo aqueles que nunca tivemos tempo para chamar amigos). Como dizia a Catarina " estranha sintonia esta entre os seres desta terra". É como se o lamento tivesse um som. Aquele que o leitor escuta quando lê um livro.
Hoje estou muito zangada com um país que impõe o lamento dos livros! Era uma vez a Trama, descendo a rua...
... arrastava-me, fechando os olhos, como se carregasse restos de livros ... aqueles que também não posso comprar... pois neste reino, tudo se arrasta, tudo se conta até ao último tostão. Voltar as costas, deixar lá os livros e quem os sabe tão bem promover, foi o mesmo que soltar a trela e deixa-lo ir de vez para Timbucktu. Sinto contudo que não havia nada melhor a fazer do que lhe soltar as cordas. Parabéns à Trama que tantos amigos reuniu e que dignamente mostra que sabe soltar (as) correntes!
... que sejam muito felizes nessa terra nova onde os livros têm vida. Obrigada. PS: As ilustrações usadas neste post foram retiradas do Livro infantil "Fico à Espera" de Davide Cali e Serge Bloch e está à venda na Trama.

07/01/11

atp


gosto de ser beijada quando acordo. pela manhã abri a janela que anunciou o sol. no computador, ao som de Wagner, um convite para a festa de todos os amanhãs. Largo sorriso.
Logo há concerto de Janácek. a seguir haverá rock e guitarras roucas. à noite dançarei numa espelunca qualquer de Lisboa. depois de almoço enchi os ouvidos dos delírios da Polly Jean. apeteceu-me dançar enquanto subia a rua. acabei o Livro. agora escrevo, ainda rendida à música de Gorécki. faltam umas horas para atrevessar os jardins da Gulbenkian. Sou avenidas novas e cais de sodré num só corpo e vontade. Junto as mãos... eis a vontade cair a cabeça no teu ombro. Sou melodia e atonalidade numa só linha. E sou feliz, com uma enorme facilidade.

19/08/10

Silly after Season.

Lembro-me do Caro Diário do Moretti sempre que vagueio pelas ruas da cidade em Agosto. Lisboa torna-se particularmente serena e bela em Agosto. A parte menos boa desta história é que o Verão 2010 veio com a saga "Kubrickniana", atendendo ao volume louco de trabalho dos últimos meses, mas isso são outras …

Prefiro falar-vos desta cidade que me acolhe. Agosto veio trazer-lhe gente nova que olha os prédios devolutos (os inadmissívelmente muitos prédios devolutos da cidade) como se fossem relíquias da Istambul de O. Pamuk. Isso dá nervos, é triste e lamentável. O marketing turístico de Lisboa é absolutamente merdoso, comparado com cidades como Berlim, Istambul ou mesmo a rival Madrid. A partir das 19h o Rossio e as ruas da Baixa transformam-se em corredores do metropolitano versão: "Estação da Rotunda, 1987, 0h30m de um domingo qualquer!"

Não há uma esplanada aberta, não há um lugarejo para sentar e desfrutar das quentes noites de Lisboa, tudo às moscas! A Praça da Figueira é um exemplo característico desta sonolência urbana: imaginem aquela Praça na Galiza, Andaluzia, na Sardenha, em Granada/Nicarágua, na Invicta ou mesmo no Granho do Ribatejo! Certamente o cheiro a caril seria aproveitado para vender mais imperial haveria, pelo menos, muitas esplanadas na rua, muita gente bonita, mais euros a girar, sem ser apenas para compra dos tradicionais cubos de tempero para canja de galinha.

Nota negativa também para a Cinemateca Portuguesa. Sinopse: "Hora de almoço em Lisboa. Turistas a passear de guia na mão à procura de uma alternativa decente aos cinemas das grandes superfícies. Frequentadores habituais da Cinemateca dão com o nariz na porta! As Frases: “A cinemateca encerra durante o mês de Agosto”, “Closed”! Será que a casa do cinema está embevecida pela Lei Seca?

Mas falemos agora de notas positivas. E as notas positivas do mês vão para os eventos que Lisboa tem vindo a oferecer. Falo-vos particularmente das borlas, coisa tipicamente apreciada por qualquer tuga que se preze.

Parabéns mais uma vez à organização do CCB Fora de Si que apesar do PEC ainda nos dá alternativas. É o caso do grande concerto de Concha Buika, a senhora que soube elevar a voz em homenagem a Chavela Vargas e transformar Belém num dos lugares mais belos do planeta naquela noite! Para além das propostas de cinema, dança, jazz, é Fora de Si que o CCB nos aparesentará Melech Mechaya já este Domingo e a festa continuará durante Agosto, com Jaques Morelenbaum e o seu Cello Samba Trio.

Destaque também para a Filho Único que tem vindo a promover eventos magníficos no Museu do Chiado. Hoje, mais uma vez, lá estaremos para "viajar" ao som do mestre Kimi Djabaté.

Há ainda a Fundação Calouste Gulbenkian, (sempre). Pena que Festival Próximo Futuro aparente não vir a ter tanto…
Salvou-se o Jazz em Agosto com o grande concerto de John Surman (vénia) & Jack DeJohnette ou ainda Circulasione Totale Orchestra entre outros.

O regresso está marcado para finais de Setembro. Depois das férias que me levarão por terras andinas e amazónia bolíviana vai haver pouca vontade de voltar à selva. Talvez o concerto de Jóhann Jóhannsson me ajude no regresso à Eurolândia ou me inspire para voltar a viajar... quiçá por muito mais tempo. Jóhannsson é a melhor proposta musical para vagabundos e outros viajantes ...

Voltando aos concertos e à música After Silly Season, palmas para a programação do Teatro Maria Matos, com Faust a 6 de Outubro e Hauschka 22 de Outubro. Há ainda a reentrée do CCB com destaque para os concertos do Coral Lisboa Cantat e do Coro Ricercare (ora toma!). Por falar nisso, não perder a estreia a absoluta do Filme do Desassossego de João Botelho, onde há Fernando Pessoa, e música cantada em "modo Ricercare" com saudades das gravações em Sintra! Para acabar de vez com os saudosismos das férias e até porque em Novembro já se planeará outra fuga, há !!! (Chk Chk Chk) a 9 de Novembro no Lux. Há ainda a sempre tão boa programação da Culturgest com Carlos Zíngaro /Miguel Mira/Paulo Curado e Zul Zelub & Eddie Prévost. Também há Interpol e Arcade Fire ou L. Cohen que só vou se alguém me arranjar um bilhetinho. Ponto.

E há sempre aqueles fins de tarde na esplanada do Noobai ... e que cores tem esta cidade ao fim da tarde!!!

Hoje Siamo Arrivati! Falta quase uma semana para o início das férias. Para celebrar a quase-quase data há Kimi Djabaté para os saudosistas daquele fim de tarde em Sines...

28/07/10

Pé na estrada: Festival Músicas do Mundo 2010

São 16h15m.
Lisboa arde sob o jugo estival... um calor abrasador!
Cá por casa tem rodado entre outros, Tinariwen,Wimme, Kimi Djabaté, Staff Benda Bilili e outros sons quentes das anteriores edições do FMM Sines.
Há eventos que se esperam durante um ano inteiro e Julho chegou com a promessa de Sines.
Faltam precisamente 23 minutos para pegar na mala, descer as escadas, gritar ROSEBUD e vernáculos não tão literatos, enquanto atravessamos a ponte para sul. No carro vai rodar Dave Dee, Dozy, Beaky, MickTich- Hold Tigh, vamos a caminho!
Em Sines: o mundo a meus pés...
Eis o Programa das Festas, com especial destaque para o evento de hoje às 03h30m.
Fui!

28 de Julho
Vitorino e Janita Salomé com Grupo de Cantadores de Redondo (Portugal), Castelo, 18h30
Cacique’97 (Moçambique / Portugal), Av. Vasco da Gama, 20h00
Nat King Cole en Espagnol (EUA / Cuba / Portugal), Castelo, 22h00
Las Rubias del Norte (EUA), Castelo, 23h30
Céu (Brasil), Castelo, 01h00
Novalima (Peru), Av. Vasco da Gama, 03h00
Mergulho no mar, 03h30

29 de Julho
34 Puñaladas (Argentina), Castelo, 18h30
Wimme (Finlândia / Povo Sami), Av. Vasco da Gama, 20h00
Yasmin Levy (Israel), Castelo, 22h00
N’Diale – Jacky Molard Quartet & Founé Diarra Trio (Bretanha / Mali), Castelo, 23h30
The Mekons (Reino Unido / EUA), Castelo, 01h00
Grupo Fantasma (EUA), Av. Vasco da Gama, 03h00

30 de Julho
Kimi Djabaté (Guiné-Bissau), Castelo, 18h00
The Rodeo (França), Av. Vasco da Gama, 19h30
Barbez (EUA), Castelo, 21h30
Sa Dingding (China), Castelo 23h00
Tinariwen (Mali / Sahara), Castelo, 00h30
Forro in the Dark (Brasil), Av. Vasco da Gama, 02h30
Bailarico Sofisticado convida Selecta Alice (Portugal), Av. Vasco da Gama, 04h00

31 de Julho

Guadi Galego (Galiza), Castelo, 18h00
Galaxy (Timor-Leste), Av. Vasco da Gama, 19h30
Lole Montoya (Espanha), Castelo, 21h30
Cheick Tidiane Seck feat. Mamani Keita (Mali), Castelo, 23h00
Staff Benda Bilili (R. D. Congo), Castelo, 00h30
U-Roy (Jamaica), Av. Vasco da Gama, 02h30
Batida (Portugal / Angola), Av. Vasco da Gama, 04h00
Com tecnologia do Blogger.




 
Persona: Um blogue, ou coisa que o valha, assinado por SA que um dia se chateou com o anonimato e decidiu testar o poder das siglas.
Um espaço ainda sem o nome da autora mas com registo de autor (a malta aqui não coloca palavras no prego).
Uma parceria sonora e gráfica com o Bitsounds.
Vendemos para fora e fazemos entregas ao domicílio.
Não vamos aderir ao acordo ortográfico.
Blogue não testado em animais!