26/08/11

Cofre Raúl Ruiz - cofres e mistérios

Uma das formas de homenagear Raúl Ruiz é relebrar a sua obra. Recentemente o mercado nacional acolheu a colecção que vem consagrar o trabalho do realizador chileno .
O “Cofre Raúl Ruiz- A consagração” inclui cinco filmes do realizador: “Klimt Director’s cut”; “Aquele dia”; “O Tempo Reencontrado”, “Genealogias de um Crime” e “Três vidas e uma só Morte” obras que determinaram a consolidação da vasta carreira de Raúl Ruiz, que nos deu a conhecer notáveis interpretações de Catherine Deneuve, Marcello Mastroianni, John Malkovich, Michel Piccoli, Melvil Poupaud, Emmanuelle Béart, Bernard Giraudeau, entre outros.

Klimt

O primeiro filme da colecção, apresentado no festival de Berlim em 2006, consiste num retrato do artista austríaco Gustav Klimt cujas pinturas sexuais vieram simbolizar o estilo de Arte Nouveau do final do século XIX e início do século XX.
O filme de Raúl Ruiz não é só um trabalho sobre a vida do pintor austríaco, é também um testemunho da realidade artística e conceptual da Europa no final do século XIX. Nestes tempos de mudança, Klimt assume-se como um artista controverso, o expoente máximo do simbolismo, do erotismo e da liberdade sexual em constante oposição com a ideia de arte predominante. Ruiz não se priva de inúmeras referências estéticas acabando por transformar o ecrã numa tela onde são retratados personagens ambíguas que surgem como uma espécie de consciência sublimada. Há momentos no filme que são quase cópias das cores e das técnicas do pintor. A escolha das personagens, do guarda-roupa e dos cenários são irrepreensíveis. Às pinturas de Ruiz acresce a magnífica fotografia de Ricardo Aronovich abundante em tons dourados e espelhos quebrados que remetem para as criações de Klimt. Da mesma forma que o trabalho de Klimt é intencionalmente simbólico, todo o filme é uma alegoria assente na dualidade entre consciência e realidade. Malkovich é a escolha perfeita. Porém apesar do imenso impacto visual e estético deste filme, Ruiz dá excessiva tónica aos diálogos de ordem filosófica que, se compararmos com a Morte em Veneza de L. Visconti por exemplo, acabam por ser repetitivos e por vezes exagerados. Contudo mais do que um exercício pictórico, Klimt é um filme que consegue trazer para o cinema a arte e a técnica de um dos maiores pintores europeus do início do século XX.

Aquele Dia


Raúl Ruiz é detentor de uma vastíssima obra cinematográfica rodada em diversos países, desde o Chile, terra natal, onde se estreou com a curta "La Maleta" (1963) e onde filmou até 1974, à França, o país de exílio, no qual assinou o primeiro filme que tornou o seu nome conhecido internacionalmente, "L''Hypothèse du Tableau Volé" (1979). Aquele Dia é o filme helvético de Raúl Ruiz, nomeado à palma de Ouro no ano de 2003. Abandonando o estilo pautado por temas cinematográficos com diferentes considerações filosóficas, neste filme Ruiz apresenta uma sátira à burguesia passando igualmente criar uma espécie de fábula moderna de contornos surrais e macabros, invertendo propositadamente a noção do bem e do mal. O realizador fornece ao público três temas para compreender o filme. O primeiro tema é a construção de um conto de fadas actual. Todo o filme gira em torno de um tema central no qual o belo, o sensual e o cruel protege uma jovem inocente. A personagem central, a desinquieta Emil, surge como uma espécie de Alice contemporânea “num país das maravilhas” ainda irreal mas mais moderno. Emil pensa que o dia seguinte, o amanhã, será o melhor dia da sua vida e para tal, saberá como ganhar sua liberdade livrando-se de um banquete de maldições, um cenário perverso montado por toda a sua família. A segunda pista oferecida pelo realizador é a construção deste filme como uma trama policial que decorre numa Suíça inexistente, invadida pelo militarismo. Neste cenário é contada a história de uma herdeira que convive pacificamente com macabros esquemas familiares e os planos governamentais. Por último, Aquele Dia é também uma fábula política com pitadas de humor burlesco, a fábula poética de Ruiz que proporciona momentos verdadeiramente hilariantes, herdeiros dos traços de Chabrol, temperado com a irreverência de Godard e o pitoresco universo de Alain Resnais. Por tantas referências ao melhor do cinema francês e semelhanças também com a estética de Manoel de Oliveira, este filme deve ser visto não só como um exercício estético do realizador mas também uma homenagem pueril ao cinema nas suas diversas formas.

O Tempo Reencontrado

O Tempo Reencontrado é o filme de Ruiz nomeado para a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1999, mas é também um filme em que realizador segue “em busca de um tempo perdido”, que resulta num trabalho excepcional: a aliança entre cinema e literatura, umaa justíssima homenagem a um dos maiores escritores de todos os tempos Marcel Proust.
Todas as formas de homenagear Marcel Proust (1871-1922) serão sempre insuficientes face à grandeza de sua obra. Proust é um dos grandes romancistas e figuras literárias da época moderna. A sua obra de sete volumes foi escrita entre 1913 e 1927. “O Tempo Reencontrado”é o último volume deste fluxo de narrativas interligadas.
Neste filme Ruiz reencontra Marcel Proust já no fim dos seus dias, num quarto forrado de cortiça onde passou boa parte da sua vida, vítima de asma. A voz do escritor (Patrice Chéreau) que revê fotografias do passado vai revelando as recordações e episódios mais marcantes de toda a sua vida. Do paraíso perdido da infância aos salões literários de Paris, o filme retrata a vasta comédia humana de todos os personagens que cercaram e apoiaram o escritor, passando também pelos tempos do trauma da Primeira Guerra Mundial e a formação de uma nova sociedade pós-guerra.
Raoul Ruiz recria neste filme a intenção de Proust: a tentativa de criar uma atemporalidade impossível, misturando cenários barrocos com planos surreais. Esta fórmula é extremamente bem conseguida pois ao longo do filme, o conceito de tempo vai-se perdendo e no fim, o espectador é confrontado por sublimes volumes de estilhaços intemporais. Com magníficas interpretações a cargo de Marcello Mazzarella, Catherine Deneuve, John Malcovich, Vincent Perez e Emmanuelle Béart as personagens reais, que fizeram parte das histórias de Proust, começam a misturar-se com as personagens criadas para a ficção e, gradualmente, a ficção vai-se sobrepondo à realidade. Um filme para amantes de literatura e de cinema absolutamente imperdível.

Genealogias de um Crime


Genealogias de um Crime de Ruiz é baseado em factos reais. O realizador foi beber a sua inspiração na história da psicanalista austríaca Hermine Hellmut von Hug, assasinada pelo sobrinho, que também era seu paciente. Convencida da índole assassina do sobrinho, a psicanalista dá azo à concretização de um sonho premonitório. O menino é submetido a tratamento e introduzido na prática de jogos de análise sugeridos pela tia. Jeanne, a psicanalista (Catherine Deneuve), passa a observar minuciosamente comportamentos e reações do sobrinho. Tudo é diariamente registado, com pensamentos e reflexões a respeito do comportamento da criança. Após o crime o sobrinho de Jeanne é absolvido mas o conflito conflito profetizado pela psicanalista tem continuidade noutro plano, no relacionamento entre a advogada Solange, também interpretada por Deneuve, e Réné, seu cliente. Solange é uma advogada conscienciosa. No entanto, um dia permite-se transpor a fronteira que separa o trabalho jurídico e a sua vida privada para defender o jovem René, que matou a tia Jeanne. Solange vê em Réné o seu próprio filho morto num acidente, envolvendo-se com ele numa relacção amorosa. A abordagem de Ruiz ao universo da psicanálise procura demonstrar a transcendência, perenidade e universalidade dos mitos e sonhos. Mais uma vez como em tantos outros trabalhos do realizador, o real e o predestinado extravasam as vivência e consciências pessoais. Mas este filme de Raúl Ruiz não é apenas um laboratório experimental no campo da psicanálise, é também um exercício que invade o universo jurídico ressuscitando questões de ética e deontologia numa profissão que não se quer de sonhos nem de afectos. Ruiz ressususcita a polémica da permeabilidade do direito a outras ciências e vai mais além, dita a pena dos incautos e determina a culpa de quem se emiscui em seara alheia. O realizador consegue criar uma história onde a colaboração interdisciplinar na determinação da responsabilidade penal vai conhecendo limites humanos. Porém no mundo jurídico não há espaço para incertezas ou questionamentos perenes, muito menos há espaço para a ténue fronteira entre a profissão que se exerce e as emoções que a ela estão interligadas. Um filme muito interessante e com um final absolutamente inesperado.

Três vidas e uma só Morte


Três vidas e uma só Morte foi nomeado para a Palma de Ouro no festival de Cannes e vencedor do prémio da crítica no Festival de S. Paulo em 1996. Nesta trama em três dimensões Raúl Ruiz constrói a história de um homem (Marcello Mastroianni) que se divide em três nomes e três personalidades, posicionando-os em três diferentes histórias de amor, luxúria e crime. O primeiro homem é Mateo Strano é um representante comercial que parte para uma curta viagem, mas na verdade limita-se a atravessar a rua para, durante 20 anos, habitar numa casa frente à sua. Certo dia, sem a menor explicação Mateo volta à sua própria casa, sob o olhar incrédulo da esposa Maria. O segundo homem é o célebre e abastado professor de antropologia George Vickers que se torna mendigo e se apaixona perdidamente pela prostituta Tânia. E por fim o terceiro homem, o poderoso homem de negócios Luc Allamand, e a terceira história. Luc inventa para si mesmo uma família que reside no estrangeiro. Tempos depois recebe surpreendentemente, uma carta comunicando a iminente chegada dos parentes para uma visita. Ruiz reúne três histórias surreais e aparentemente separadas. Mas na verdade, oscilando entre o paradoxal e o pesadelo, todas as histórias pertencem a um só homem, dividido entre suas múltiplas personalidades. Uma espécie de Trilogia de Nova Iorque de Paul Auster rodada em Paris mas com um final bem mais evidente, se um homem tem três vidas, nada pode mudar o facto de que ele terá apenas uma morte.


Cofre Raúl Ruiz - Raridades


Trata-se de uma colectânea de três obras raras do aclamado realizador chileno, cuja alquimia cinematográfica se revela em ambientes fantásticos. Estes três filmes rodados em Portugal, todos com a assinatura do produtor Paulo Branco, demonstram o lado ilusionista do realizador, um cineasta artesão, criador de imagens em movimento.

Combate de Amor em Sonho


Combate de Amor em Sonho também se poderia intitular os “Mistérios da Regaleira”. Ruiz aproveita os magníficos cenários da Quinta da Regaleira e da Praia da Adraga para construir um conjunto de histórias, aparententemente sob a forma de conto infantil. Trata-se de um filme que reúne uma série de fábulas mágicas que aos poucos se vão transformando em fábula filosófica.
Neste filme Raúl Ruiz opta por encadear nove histórias representadas por letras e alternadas numa técnica aleatória.
A primeira história é sobre a vida de um estudante de teologia da Universidade de Coimbra, que descobre, no dia em que faz vinte anos, que perdeu a fé nos sentidos ao ler a primeira meditação de Descartes. A segunda história conta as aventuras de um larápio que encontra num assalto um espelho ladrão que faz desaparecer tudo o que reflecte. A terceira história conta as emoções e angústias dos proprietários de um quadro
Com poderes para curar enfermidades. A quarta história narra a busca de vinte e dois anéis e de uma cruz de malta que ao serem combinados permitem a quem os possuir viver em vários mundos. A quinta história é sobre o dilema de dois irmãos gémeos teólogos que discutem continuamente sobre o livre arbítrio e a pré-determinação. A sexta história é sobre as aventuras de dois fantasmas de piratas que procuram um tesouro que eles próprios esconderam durante séculos. A sétima é uma história de antecipação, em que um estudante descobre que num site da internet há alguém que conta minuciosamente, um dia antes, as peripécias da sua vida quotidiana. A penúltima história é sobre o Amor. Dois amantes que nunca se encontraram na vida real, encontram-se todas as noites em sonhos. Na última história um homem muito católico descobre que é judeu no mesmo dia em que o seu pai é raptado por três almas penadas.
E assim sucede este filme, colando-se uma história com outra, e esta com outra qualquer até uma infinita conjugação, onde o autor parece querer baralhar o espectador. Aparentemente inovador o filme resume-se a um exercício estilístico que poderia ter sido fruto de uma reunião de devaneios. No fim perde o cinema e a sua lógica. Salvam-se os cenários, o guarda- roupa e a belíssima fotografia.



A Cidade dos Piratas


A Cidade dos Fantasmas é um dos filmes mais bizarros de Raúl Ruiz. Composto sob o signo do surrealismo o filme assenta numa trama familiar com recurso a personagens que são verdadeiros arquétipos dos modelos da psicanálise. Neste filme o realizador desafia os limites da mistificação, recorrendo a alegorias, sonhos proféticos, e personagens sinistras. O filme remete para o universo onírico do realizador retratando a história conflituosa de uma criança que fugiu de casa e Isadore, a mulher que poderia ser sua mãe. Isadore é representada como uma heroína surrealista invocando, ao mesmo tempo, as personagens femininas da tragédia grega. É uma mulher condenada, alucinada, dada a transes, sonambulismo e convulsões histéricas. Para além de ser um dos filmes mais bizarros e surreais do realizador chileno, A Cidade dos Fantasmas é um filme pobre não apenas em termos de conteúdo mas também no que concerne à forma. Existem cenas grotescas, bizarras e maniqueístas que dominam toda a história fazendo dela um conto escatológico. A história relata o encanto que um misterioso menino de 10 anos exerce sobre a Isidore, conduzindo-a para o suicídio. Toda a cena decorre num cenário pictórico pintado pelo mar e agrestes escarpas rochosas, ecos de uma cidade que não existe. Neste exercício surreal o realizador conta a história de um assassino que se esconde numa ilha e vê o seu futuro carrasco encarnado numa criança que é uma réplica exacta de si mesmo. No fundo Raúl Ruiz recorre novamente à fórmula de reunir, num único filme, três histórias que acabam por ser uma só. Embora ambíguo e recorrendo a técnicas rudimentares, a Cidade dos Piratas deve ser lido como filme-fantástico, reunindo transe e a paranóia, poesia mórbida e referências ao maniqueísmo artístico e cultural do início dos anos 70.
O DVD inclui extras sobre a filmografia de Raúl Ruiz, uma entrevista ao realizador e a Mevil Poupad para além de uma cena comentada por Fréderic Bonnaud. O DVD incluiu ainda o outro filme inédito de Raúl Ruiz realizado em 1984: Ponto de Fuga.



O Território


O Território é uma espécie de filme de aventura com laivos de filme de terror, mas acaba por ser manifesto de uma metafísica extraordinária. Tem como tema central o canibalismo e o desespero dos homens. A história tem como protagonistas um grupo de norte-americanos (dois casais, duas crianças) e seu guia, que partem numa excursão pela floresta. O filme, inspirado por um incidente que ocorreu nos Andes após um acidente de avião, acaba por convidar o espectador a integrar a história.
Subitamente o guia que acompanha o grupo desaparece e aos poucos os protagonistas vão-se perdendo no Território, uma espécie de "zona" tarkovskyana, um espaço ficcional inóspito e confuso. Presos neste espaço, os membros do grupo vão compreender os contornos entre o realismo e sonho. Neste Território, Ruiz consegue metaforizar o comportamento humano quando confrontado com a impotência perante as suas próprias representações. Para tal elege um território que não respeita as convenções da percepção, desafiando os limites da racionalidade. Neste filme Ruiz explora, mais uma vez, um tema dominante em todo o seu trabalho: a percepção da realidade depende das nossas ideias, do nosso próprio sistema real e ficcional e da forma como lidamos com as nossas “zonas de incerteza”, as manobras cinzentas da alma.
A força e a estranheza do filme residem nas representações invocadas pela história e pelos personagens ou seja, as representações do espectador, que é chamado a participar no desafio. No Território o espectador é ele próprio uma personagem que tenta encontrar seu caminho. O filme transporta-nos a um universo fantástico, ancestral e maravilhosamente primitivo (o medo da noite, do desconhecido, a estranheza da natureza…), incidindo sobre os nossos medos e mais recônditos segredos. E por isso, um pouco mais do que um filme, é um desafio, um convite, um risco. Mas vale a pena.



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